Myriam Fraga
Myriam Fraga nasceu em Salvador, Bahia, em 09 de novembro de 1937. Poeta, contista,
pertence a Academia de Letras da Bahia desde 1985 e dirige a Fundação Casa de Jorge Amado desde que foi instituída em 1986. A carreira literária de Myriam Fraga explodiu nos efervescentes anos 1957/58, quando intelectuais da época, que freqüentavam a Universidade, a Escola de Teatro, a Casa de Cultura localizada no bairro do Canela, se reuniam para trocar, além de idéias, também escritos. A partir daí, Myriam Fraga começou a publicar em jornais e revistas, fazendo amizades com Sonia Coutinho, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez, Glauber Rocha.
A poeta baiana lançou o seu primeiro livro em 1964, pela editora Macunaíma, uma editora criada por Glauber Rocha, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez e Paulo Gil Soares com o objetivo de publicar as produções dessa geração.
Atualmente Myriam Fraga colabora como jornalista no Jornal A Tarde, através da coluna Linha D’Água, espaço reservado para assuntos relacionados a vida cultural da cidade. Publicou, recentemente, no número 03 da revista Iararana, três poesias: Hipupiara, Os Ancestrais e Os Invasores.
Poemas extraídos de O ESCRITOR – Revista da UBE – União Brasileira de Escritores, n. 116, agosto de 2007, cujo editor é o poeta Izacyl Guimarães Ferreira.
CARNIVALE
Porque a carne
É a carne
E tudo mais é fraco
A vida se renova
A cada novo acaso.
Será mesmo a alegria
O gole mais amargo
De um Pierrot que a si mesmo
Reconhece palhaço?
Ó espelho. Ó espelho,
Cada dias mais baço,
Que alvo contorno é este,
Que disfarce
Afasta deste rosto
O ríctus de cansaço?
Nas se é apenas um rito,
Se é apenas passagem,
Um frenesi, um espasmo,
Um galope de cascos,
Rutilantes, no asfalto.
E ao estridente soar
Das guitarras em pânico,
O tempo se desdobra
Em mil estilhaços
Fragmentos de nada...
Ó Deusa Carnivale,
Embala nos teus braços
A alegria dos tristes,
Este embaraço
Do sorriso que se perde
Em carmim e alvaiade.
No rescaldo da festa
Recolhe os pedaços
Deste deus que é delírio
Mas que é também fracasso
Breve
Todo ardor será cinza
Somente a enigmática
Face nos espelhos
Recompondo o disfarce.
CHUVA
Reminiscências
A inquietar
Como a chuva nos vidros.
Sol que avança,
Inexorável,
O tempo, com suas marcas,
Sua umidade em rios,
Dissolvendo a paisagem,
Seu mofo, sua
Insidiosa presença
Escorrendo da tarde.
Um gotejar sinistro,
O salitre
Infiltra-se nas frestas
Reacendendo feridas.
Ó coração,
Não te atormentes,
Não te levantes contra mim,
Esquece.
Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 109)
VIAGEM A MARROCOS
Para Zélia e Jorge Amado
Na cara o vento sul
— Ou será o simum?
O balançar ondeado
Dos camelos.
Fez, Rabat e Casablanca,
Terracota sutil de Marrakesh,
A cristalina fonte
Em meio à pedra.
Azilah, tuas sílabas
Adejam como aves,
Como asas roçando
Em minha face.
O meu deus é ninguém,
Morreu menino e é doce
Como um fruto,
Como as águas de Oxum
Lavando-me as feridas.
Guarda para mim,
Azilah,
Tuas tâmaras mais doces,
Mais secretas...
Um minarete escreve
Linhas tortas
No canto que se enrola
Pela tarde.
Como um risco de giz
Meu caminho é um círculo,
As caravanas passam...
No regaço
O cão, morto, não ladra.
Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 121-122)
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