segunda-feira, 28 de março de 2011

Myriam Fraga


Myriam Fraga nasceu em Salvador, Bahia, em 09 de novembro de 1937. Poeta, contista,

pertence a Academia de Letras da Bahia desde 1985 e dirige a Fundação Casa de Jorge Amado desde que foi instituída em 1986. A carreira literária de Myriam Fraga explodiu nos efervescentes anos 1957/58, quando intelectuais da época, que freqüentavam a Universidade, a Escola de Teatro, a Casa de Cultura localizada no bairro do Canela, se reuniam para trocar, além de idéias, também escritos. A partir daí, Myriam Fraga começou a publicar em jornais e revistas, fazendo amizades com Sonia Coutinho, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez, Glauber Rocha.

A poeta baiana lançou o seu primeiro livro em 1964, pela editora Macunaíma, uma editora criada por Glauber Rocha, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez e Paulo Gil Soares com o objetivo de publicar as produções dessa geração.

Atualmente Myriam Fraga colabora como jornalista no Jornal A Tarde, através da coluna Linha D’Água, espaço reservado para assuntos relacionados a vida cultural da cidade. Publicou, recentemente, no número 03 da revista Iararana, três poesias: Hipupiara, Os Ancestrais e Os Invasores.

Poemas extraídos de O ESCRITOR – Revista da UBE – União Brasileira de Escritores, n. 116, agosto de 2007, cujo editor é o poeta Izacyl Guimarães Ferreira.





CARNIVALE



Porque a carne

É a carne

E tudo mais é fraco

A vida se renova

A cada novo acaso.



Será mesmo a alegria

O gole mais amargo

De um Pierrot que a si mesmo

Reconhece palhaço?



Ó espelho. Ó espelho,

Cada dias mais baço,

Que alvo contorno é este,

Que disfarce

Afasta deste rosto

O ríctus de cansaço?



Nas se é apenas um rito,

Se é apenas passagem,

Um frenesi, um espasmo,

Um galope de cascos,

Rutilantes, no asfalto.



E ao estridente soar

Das guitarras em pânico,

O tempo se desdobra

Em mil estilhaços

Fragmentos de nada...



Ó Deusa Carnivale,

Embala nos teus braços

A alegria dos tristes,

Este embaraço

Do sorriso que se perde

Em carmim e alvaiade.



No rescaldo da festa

Recolhe os pedaços

Deste deus que é delírio

Mas que é também fracasso



Breve

Todo ardor será cinza

Somente a enigmática

Face nos espelhos

Recompondo o disfarce.



CHUVA

Reminiscências

A inquietar

Como a chuva nos vidros.



Sol que avança,

Inexorável,

O tempo, com suas marcas,



Sua umidade em rios,

Dissolvendo a paisagem,



Seu mofo, sua

Insidiosa presença

Escorrendo da tarde.



Um gotejar sinistro,

O salitre

Infiltra-se nas frestas

Reacendendo feridas.



Ó coração,

Não te atormentes,

Não te levantes contra mim,

Esquece.





Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 109)





VIAGEM A MARROCOS



Para Zélia e Jorge Amado



Na cara o vento sul

— Ou será o simum?

O balançar ondeado

Dos camelos.



Fez, Rabat e Casablanca,

Terracota sutil de Marrakesh,

A cristalina fonte

Em meio à pedra.



Azilah, tuas sílabas

Adejam como aves,

Como asas roçando

Em minha face.



O meu deus é ninguém,

Morreu menino e é doce

Como um fruto,

Como as águas de Oxum

Lavando-me as feridas.



Guarda para mim,

Azilah,

Tuas tâmaras mais doces,

Mais secretas...



Um minarete escreve

Linhas tortas

No canto que se enrola

Pela tarde.



Como um risco de giz

Meu caminho é um círculo,

As caravanas passam...



No regaço

O cão, morto, não ladra.





Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 121-122)

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