A sociedade de consumo ao recriar a recepção literária por lidar com o fenômeno da divulgação e da distinção, reelabora novos espaços de divulgação dos livros, que passam a ser massificados pela perspectiva da acessibilidade, como característica da modernidade. Sob essa perspectiva muitos livros são disponibilizados em sites de importantes bibliotecas nacionais e internacionais, A era tecnológica imbrica-se na leitura emergindo portanto uma questão bastante intrigante, o livro impresso está com seus dias contados?
A leitura vem sendo questionada a cerca de uma reelaboração em sua perspectiva, pois acredita-se que a leitura através da internet esteja ampliando e determinando uma nova possibilidade de conceber esta atividade.
Novos suportes tecnológicos põem em cheque a sobrevivência do livro, este que já constituiu o apanágio da modernidade, pois surgiu no momento das revoluções, marcando o progresso econômico e cultural da Europa Ocidental. A divulgação do conhecimento reconheceu nesse suporte uma ação decisiva para a sociedade em constante tranformação. Tal transformação tem determinado uma nova perspectiva para este suporte que amplia a tradicional forma de leitura.
Os recém lançados Ipads lança uma questão polêmica acerca da sobrevivência do livro. Muitos defendem a ideia do fim das bibliotecas convencionais e vislumbram de forma profética que o armazenamento on-line substituirá, num futuro bem próximo, o livro impresso. É possível pensar, diante desta nova possibilidade que seria muito mais cômodo e rápido acessar os acervos virtuais do que dirigir-se a uma biblioteca.
Questões como essas são levantadas pelo historiador Robert Darnton, em seu livro “A questão dos livros”, pois o acesso às bibliotecas são gratuitos, com a digitalização dos livros surge uma dúvida, o acesso a eles continuará a ser? O autor aponta para a soberania da Google, o maior e mais utilizado site de buscas do mundo, além de ser a detentora de redes sociais, como o Orkut e o Youtube, o maior site de acervo videográfico do mundo.
Darnton afirma que o Google já digitalizou cerca de 10 milhões de livros, o lado positivo é que ele possibilitará que consumidores comprem acesso a milhoẽs de livros, protegidos por copyright e ainda em catálogo, para leitura em telas de computador ou equipamentos portáteis. Outros milhões de livros, cerca de 7 milhões de obras sob copyright, mas fora de catálogo, incluindo milhões de obras consideradas orfãs, pois os detentores de direitos ainda não foram identificados, ficarão disponíveis mediante assinaturas pagas por instituições, como universidades.
Ainda segundo Darnton, esse banco de dados, em conjunto com livros em domínio público já digitalizados pelo Google, formará uma biblioteca digital gigantesca que crescerá gradualmente até um dia ultrapassar a Biblioteca do Congresso (que atualmente contém mais de 21 milhões de livros catalogados).
O autor mostra-se preocupado não necessariamente com o novo suporte, mas com os preços, pois algumas informações demonstram o perigo dos monopólios e sua tendência de cobrar preços monopolistas. Outra questão apontada pelo autor é a possibilidade do controle do Google sobre o acesso aos livros acabar reforçando seu poder também sobre o acesso a outros tipos de informação, levantando questões de privacidade (o Google pode agregar dados sobre a leitura, os e-mail(s), o consumo, a moradia, as viagens, o emprego e muitas outras atividades dos usuários. Não podemos deixar de mencionar que o Google é uma empresa e seu objetivo principal é gerar lucros para seus acionistas.
Darnton, embora aponte tais perspectivas para essas ações que podem monopolizar ou dificultar o livre acesso a cultura não é contra a digitalização, pois alguns projetos com o Gutenberg-e, uma editora virtual que publica trabalhos acadêmicos, onde o acesso é gratuito, foi idealizado pelo historiador. Muitos trabalhos acadêmicos, como teses e dissertações estão disponibilizados no computador. Darnton, que teve experiência numa biblioteca convencional, pois durante um longo tempo foi diretor da biblioteca de Harvard, buscou dinamizar as possibilidades de acesso às leituras criando uma maneira de democratizar a informação através da criação de bibliotecas digitais públicas. Segundo o historiador:
Em 9 de novembro de 2009, no Tribunal Distrital do Distrito Sul de Nova York, a Authors Guild e a Association of American Publishers estavam programadas para entregar um acordo que resolveria sua ação judicial contra o Google alegando violações de copyright no programa para digitalizar milhões de livros de bibliotecas de pesquisa e disponibilizá-los de graça na internet. Você pode achar que isso não se compara à queda do Muro de Berlim. É verdade, mas por vários meses todos os olhos do mundo dos livros — autores, editores, bibliotecários e muitos leitores — ficaram atentos ao tribunal distrital e seu juiz, Denny Chin, pois essa disputa aparentemente pouco relevante sobre direitos autorais parecia capaz de determinar o futuro digital de todos nós.
Monopolizar a informação seria como retrocerder na história, os franceses, que tem participado de todo o processo que dá direito ao Google citaram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, para defender o princípio do “livre acesso à informação” que parece estar ameaçado pelo “monopólio de facto” do Google. Recorrendo aos aspectos culturais, os franceses enfatizaram o caráter único dos livros por acreditarem ser um produto diferente dos outros e sua capacidade de capturar a criatividade e enriquecer a civilização promovendo a diversidade, mas tudo isso estrai prejudicado pelo compromisso da Google com a comercialização.
Segundo Darnton os alemães também se pronunciaram e falaram em nome da “terra dos poetas e pensadores”, mas enfatizaram sobretudo o direito à privacidade, que segundo ele poderia ser ameaçada se o Google armazenasse dados sobre quem lê o quê. Os governos da França e da Alemanha listam em seguida uma série de argumentos complementares, quase os mesmos, palavra por palavra — e isso não é surpresa alguma, já que os dois países contrataram a mesma assessoria jurídica:
1. O acordo concede ao Google um possível monopólio sobre as obras órfãs, mesmo que a empresa não tenha direitos sobre seus copyrights.
2. A cláusula de exclusão voluntária, segundo a qual os autores aceitam tacitamente o acordo a não ser que notifiquem o Google do contrário, viola os direitos inerentes à condição de autor.
3. O acordo contém uma cláusula de favorecimento — isto é, um dispositivo que impede possíveis concorrentes de obterem termos melhores que os conquistados pelo Google em quaisquer novos usos comerciais de livros digitalizados. Os termos desses empreendimentos futuros serão determinados pelo Book Rights Registry, composto exclusivamente por representantes dos autores e editores. Esse registro cuidará dos copyrights e cooperará com o Google no estabelecimento de preços.
4. O acordo concede ao Google o poder de censurar seu banco de dados, excluindo até 15% das obras digitalizadas.
5. Suas diretrizes de preços promoverão os interesses comerciais do Google, e não o bem público, mediante o uso de algoritmos criados pelo Google conforme os métodos secretos do Google.
6. O acordo favorece o sigilo generalizado, ocultando procedimentos de auditoria, impedindo o comparecimento do público às reuniões onde o Google e o Book Rights Registry discutirão assuntos relativos a bibliotecas e até mesmo exigindo que o Google, autores e editores destruam todos os documentos relevantes ao consenso sobre o acordo.
Franceses e alemães concordam em condenar o acordo por sancionar a concentração de poder nas maõs de uma única entidade corporativa ameaçando o livre acesso de ideias através da literatura. Argumentam que o Google obteve uma receita superior a muitos países em 2008, chegando a cerca de 22 bilhões de dólares.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DARNTON, Robert. A questão dos livros : passado, presente e futuro / Tradução de Daniel Pellizzari — São Paulo : Companhia das Letras, 2010.
"Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão" Clarice Lispector
quinta-feira, 21 de abril de 2011
A Literatura e a Teoria em detrimento de uma sociedade de consumo
A Literatura vem sendo questionada a cerca de sua sacralização nos meios acadêmicos, pois sempre refletiu um certo distanciamento das classes populares por colocar-se numa erudição que sempre a tornou fechada e elitizada, em seu acesso comum apenas aos europeus e quem coadunasse com a sua perspectiva. Muitos aspectos vêm contribuindo para essa discussão que remonta um novo olhar sobre a Literatura, que passa a ser considerada não mais em sua condição de obra estética e seus critérios de literariedade, mas na possibilidade de apontar novos caminhos de ordem teóricas ou de travar diálogos sobre temas que interessem não só a um público específico.
A influência que as teorias estrangeiras exercem sobre a crítica literária vem abrindo espaço para a revisão de novos conceitos e uma nova postura frente ao questionamento do novo lugar da Literatura, isso perpassa pelo reconhecimento da descentralização do lugar de enunciação do conhecimento, segundo Souza:
A recente inclinação de conjugar o saber produzido por especialistas com sua divulgação mais popularizada traduz os diferente lugares por onde passa atualmente o conhecimento, exigindo a revisão de antigos preconceitos relativos à separação entre cultura erudita, popular e de massa. (2002, p.63).
As tranformações culturais e políticas que ocorrem nas últimas décadas vem influenciando incisivamente para as mudanças na crítica literária e uma dessas mudanças estaria atrelada aos “Estudos Culturais” que para alguns críticos poderia ameaçar os estudos literários. Diante disso, conhecer os lugares de onde estão sendo enunciados os diferentes discursos teóricos seria determinante na constituição de uma nova postura frente à teoria literária, pois há que se reconhecer a relevância da interdisciplinaridade em todos os campos de conhecimento, na medida em que a mesma se faz tão presente de forma bastante harmoniosa nesse momento onde as tendências contemporâneas caracterizadas de um pluralismo de posições e de métodos estejam em voga.
A teoria ascende sob uma nova perspectiva, na medida em que se é reconhecida não mais num lugar de estabilidade mas ao contrário vê-se instaurada numa teia de possibilidades e de novas tendências culturais e literárias que se amplia:
o que está em jogo, entre as tendências culturais e literárias, não se restringe apenas à escolha de obras que participem ou não do cânone literário. Relaciona-se ao caráter regulador da crítica cultural, ao considerar elitista a preferência do estudioso por escritores consagrados e tradicionalmente aceitos pela comunidade acadêmica.(idem, 2002, p.67)
O que defende-se aqui, portanto, está relacionado a possibilidade de se colocar em debate o novo lugar da teoria sem perder de vista todo o processo histórico a que ela esteve submetida. A falência teórica, descrita por John M. Ellis, professor de Literatura Alemã, recai segundo Souza, na filosofia francesa dos anos 70 e que são representadas por Foucault e Derrida. Ainda segundo a autora: dotada de linguagem própria, essa elite intelectual afastaria os que não se enquadrariam nos novos conceitos e expressões do momento, criando-se uma situação de exclusão “politicamente incorreta”...(2000, p. 67). A proposta da desconstrução da rigidez dos conceitos deve perpassar pelo reconhecimento da constante mudança que a teoria está imiscuída. A interdisciplinaridade deve ser encarada e praticada com um certo rigor, como propõe Compagnon, para não incorrer no erro de se tornar uma prática pulverizada e vaga resultando na impossibilidade de se conquistar o seu devido respaldo. A interdisciplinaridade , de vilã da história poderia receber tratamento mais condizente com sua força de aglutinação de diferenças e de pulverização dos limites fechados dos campos teóricos (2000, p.73)
O novo lugar da Literatura ou ainda o “não-lugar” torna presente a necessidade de se reconhecer essa posição de instabilidade como advento de uma multiplicidade discursiva, muitos teóricos, no entanto, defendem uma especificidade da Literatura, por desconfiarem da interdisciplinaridade e por esta apagar as diferenças devido a confluência de diversas disciplinas. A crítica tradicional vem tentando, de forma radical, resguardar a Literatura e sua possível diluição no campo dos estudos culturais.
O processo no qual foram rompidos os limites dos campos disciplinares, estabelecendo a cooperação entre arte, literatura e teoria e intitulado por David Carrol como paraestética não resulta no fim da teoria mas no entendimento que nem a idealização da estética, nem a supremacia da teoria devem predominar, mas ambos devem conviver no entre-lugar1 levando-se em conta os aspectos relevantes de cada um.
A tradição cultural é remontada sob o viés das transformações ocorridas nesse início do século, novas produções literárias aparecem como um corpo estranho ao paradigma literário tradicional mas muito bem ajustados ao novo cenário contemporâneo. O Objeto literário vem perdendo a sua aura em detrimento de uma perspectiva mercadológica, abrindo espaço para a cultura de massa. O acesso fácil as informações tem nutrido e incentivado a superficialidade da obra literária, pois não se há tempo a perder deglutindo informações que requer mais tempo, é necessário como nos fast foods a ingestão de informações de fácil processamento. É difícil reconhecer tal possibilidade, mas infelizmente é isso que assistimos no cenário mundial.
A Literatura, inserida no conceito de modernidade, o que para Canclini é constituído por quatro movimentos básicos, caminha de acordo com a perspectiva de tais projetos, e que segundo o autor são: projeto emancipador, expansionista, renovador e democratizador. Cada um deles caracteriza a contemporaneidade e as tendências nos campos culturais.
O projeto emancipador caracteriza-se pela racionalização da vida social e o crescente individualismo principalmente nas grandes cidades. A tendência da modernidade que busca estender o conhecimento e a posse da natureza, a produção e a circulação e o consumo dos bens é denominado como expansionista. Dois aspectos abrangem o projeto renovador, um deles busca o aperfeiçoamento e inovação constantemente, de acordo com CANCLINI: são próprios de uma relação com a natureza e com a sociedade liberada de toda prescrição sagrada sobre como deve ser o mundo; de outro a necessidade de reformular várias vezes os signos de distinção que o consumo massificado desgasta (200:32). O projeto democratizador acredita na educação e na difusão da arte e dos saberes especializados para chegar a uma evolução racional e moral.
Deter a Literatura em um desses projetos seria difícil, pois eles são concomitantes e se entrecruzam, embora ao se desenvolverem entram em choque, pois de um lado existe a necessidade utópica de se pensar o saber e a criação em espaços que pudessem desenvolver-se com autonomia, e de outro a modernização política e econômica e tecnológica parecem ter atrofiado tal possiblidade. A arte enfrenta a contradição de estar inserida numa sociedade que ao passo que necessita da divulgação que está relacionada a ampliação do mercado e o consumo dos bens para aumentar o lucro, recriam signos que venham a distinguir os setores hegemônicos, buscando desta forma a: distinção.
A sociedade de consumo recria a recepção artística e literária, pois lida com o fenômeno da divulgação e da distinção, reelaborando estes espaços de divulgação das obras, que passam a ser massificadas pela perspectiva da acessibilidade, como característica da modernidade, ou da pós-modernidade, pois ambas coexistem, embora tentem negar de forma contraditória o surgimento de uma em detrimento de outra. Ainda segundo CANCLINI: Em sociedades modernas e democráticas, onde não há superioridade de sangue nem títulos de nobreza, o consumo se torna uma área fundamental para instaurar e comunicar as diferenças (2000: 36).
A questão do gosto artístico, para a burguesia, serviria apenas para justificar que suas prioridades não estão atreladas apenas pela acumulação econômica. E o que ocorre é que a arte acaba sendo relacionada a intenções políticas e este tipo de imposição revela a manutenção e propagação da ideologia de grupos dominantes e o silenciamento das vozes de tantos outros grupos culturais descriminados e marginalizados. Propaga-se desta forma um tipo de arte que restringe a dinamicidade e a originalidade da manifestação artística.
Muitos artistas propuseram reinventar a arte de forma que ela se reintegrasse a nova perspectiva mercadológica, como afirma CANCLINI:
Tatlin e Malevitch foram encarregados de aplicar suas inovações em monumentos, cartazes e outras formas de arte pública; Arvatov, Rodchenko e muitos artistas foram para as indústrias para reformular o design, promoveram mudanças substanciais nas escolas de arte a fim de desenvolver nos alunos “uma atitude industrial em relação à forma” e de fazê-los “engenheiros projetistas”, úteis ao planejamento socialista. (Ibdem,2000: 44)
Mas a autonomia que a arte busca incessantemente esmaece sob o novo cenário que a subjuga em detrimento de um mercado em crescente ascensão determinadas por forças extraculturais.
Novos critérios de avaliação e inserção na sociedade revelam a arte e, portanto a Literatura sob um novo olhar. O mercado exerce uma força descomunal sobre a autonomia artística e isso recria o novo lugar da arte e portanto da Literatura, que não está mais restrita a um público específico mas a diversos públicos. De um lado a expansão da divulgação artística e do outro a dependência à indústria cultural.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CANCLINI, Néstor Garcia. “Das utopias ao mercado” Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3 ed. São Paulo: Edusp, 2000, p.31-66.
SANTIAGO, Silviano. A democratização no Brasil ( 1979-1981 ) - Cultura versus Arte. In: O comopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004, p.134-156.
SOUZA, Eneida Maria. A teoria em crise e O não lugar da literatura. In: Crítica Cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 63-84.
A influência que as teorias estrangeiras exercem sobre a crítica literária vem abrindo espaço para a revisão de novos conceitos e uma nova postura frente ao questionamento do novo lugar da Literatura, isso perpassa pelo reconhecimento da descentralização do lugar de enunciação do conhecimento, segundo Souza:
A recente inclinação de conjugar o saber produzido por especialistas com sua divulgação mais popularizada traduz os diferente lugares por onde passa atualmente o conhecimento, exigindo a revisão de antigos preconceitos relativos à separação entre cultura erudita, popular e de massa. (2002, p.63).
As tranformações culturais e políticas que ocorrem nas últimas décadas vem influenciando incisivamente para as mudanças na crítica literária e uma dessas mudanças estaria atrelada aos “Estudos Culturais” que para alguns críticos poderia ameaçar os estudos literários. Diante disso, conhecer os lugares de onde estão sendo enunciados os diferentes discursos teóricos seria determinante na constituição de uma nova postura frente à teoria literária, pois há que se reconhecer a relevância da interdisciplinaridade em todos os campos de conhecimento, na medida em que a mesma se faz tão presente de forma bastante harmoniosa nesse momento onde as tendências contemporâneas caracterizadas de um pluralismo de posições e de métodos estejam em voga.
A teoria ascende sob uma nova perspectiva, na medida em que se é reconhecida não mais num lugar de estabilidade mas ao contrário vê-se instaurada numa teia de possibilidades e de novas tendências culturais e literárias que se amplia:
o que está em jogo, entre as tendências culturais e literárias, não se restringe apenas à escolha de obras que participem ou não do cânone literário. Relaciona-se ao caráter regulador da crítica cultural, ao considerar elitista a preferência do estudioso por escritores consagrados e tradicionalmente aceitos pela comunidade acadêmica.(idem, 2002, p.67)
O que defende-se aqui, portanto, está relacionado a possibilidade de se colocar em debate o novo lugar da teoria sem perder de vista todo o processo histórico a que ela esteve submetida. A falência teórica, descrita por John M. Ellis, professor de Literatura Alemã, recai segundo Souza, na filosofia francesa dos anos 70 e que são representadas por Foucault e Derrida. Ainda segundo a autora: dotada de linguagem própria, essa elite intelectual afastaria os que não se enquadrariam nos novos conceitos e expressões do momento, criando-se uma situação de exclusão “politicamente incorreta”...(2000, p. 67). A proposta da desconstrução da rigidez dos conceitos deve perpassar pelo reconhecimento da constante mudança que a teoria está imiscuída. A interdisciplinaridade deve ser encarada e praticada com um certo rigor, como propõe Compagnon, para não incorrer no erro de se tornar uma prática pulverizada e vaga resultando na impossibilidade de se conquistar o seu devido respaldo. A interdisciplinaridade , de vilã da história poderia receber tratamento mais condizente com sua força de aglutinação de diferenças e de pulverização dos limites fechados dos campos teóricos (2000, p.73)
O novo lugar da Literatura ou ainda o “não-lugar” torna presente a necessidade de se reconhecer essa posição de instabilidade como advento de uma multiplicidade discursiva, muitos teóricos, no entanto, defendem uma especificidade da Literatura, por desconfiarem da interdisciplinaridade e por esta apagar as diferenças devido a confluência de diversas disciplinas. A crítica tradicional vem tentando, de forma radical, resguardar a Literatura e sua possível diluição no campo dos estudos culturais.
O processo no qual foram rompidos os limites dos campos disciplinares, estabelecendo a cooperação entre arte, literatura e teoria e intitulado por David Carrol como paraestética não resulta no fim da teoria mas no entendimento que nem a idealização da estética, nem a supremacia da teoria devem predominar, mas ambos devem conviver no entre-lugar1 levando-se em conta os aspectos relevantes de cada um.
A tradição cultural é remontada sob o viés das transformações ocorridas nesse início do século, novas produções literárias aparecem como um corpo estranho ao paradigma literário tradicional mas muito bem ajustados ao novo cenário contemporâneo. O Objeto literário vem perdendo a sua aura em detrimento de uma perspectiva mercadológica, abrindo espaço para a cultura de massa. O acesso fácil as informações tem nutrido e incentivado a superficialidade da obra literária, pois não se há tempo a perder deglutindo informações que requer mais tempo, é necessário como nos fast foods a ingestão de informações de fácil processamento. É difícil reconhecer tal possibilidade, mas infelizmente é isso que assistimos no cenário mundial.
A Literatura, inserida no conceito de modernidade, o que para Canclini é constituído por quatro movimentos básicos, caminha de acordo com a perspectiva de tais projetos, e que segundo o autor são: projeto emancipador, expansionista, renovador e democratizador. Cada um deles caracteriza a contemporaneidade e as tendências nos campos culturais.
O projeto emancipador caracteriza-se pela racionalização da vida social e o crescente individualismo principalmente nas grandes cidades. A tendência da modernidade que busca estender o conhecimento e a posse da natureza, a produção e a circulação e o consumo dos bens é denominado como expansionista. Dois aspectos abrangem o projeto renovador, um deles busca o aperfeiçoamento e inovação constantemente, de acordo com CANCLINI: são próprios de uma relação com a natureza e com a sociedade liberada de toda prescrição sagrada sobre como deve ser o mundo; de outro a necessidade de reformular várias vezes os signos de distinção que o consumo massificado desgasta (200:32). O projeto democratizador acredita na educação e na difusão da arte e dos saberes especializados para chegar a uma evolução racional e moral.
Deter a Literatura em um desses projetos seria difícil, pois eles são concomitantes e se entrecruzam, embora ao se desenvolverem entram em choque, pois de um lado existe a necessidade utópica de se pensar o saber e a criação em espaços que pudessem desenvolver-se com autonomia, e de outro a modernização política e econômica e tecnológica parecem ter atrofiado tal possiblidade. A arte enfrenta a contradição de estar inserida numa sociedade que ao passo que necessita da divulgação que está relacionada a ampliação do mercado e o consumo dos bens para aumentar o lucro, recriam signos que venham a distinguir os setores hegemônicos, buscando desta forma a: distinção.
A sociedade de consumo recria a recepção artística e literária, pois lida com o fenômeno da divulgação e da distinção, reelaborando estes espaços de divulgação das obras, que passam a ser massificadas pela perspectiva da acessibilidade, como característica da modernidade, ou da pós-modernidade, pois ambas coexistem, embora tentem negar de forma contraditória o surgimento de uma em detrimento de outra. Ainda segundo CANCLINI: Em sociedades modernas e democráticas, onde não há superioridade de sangue nem títulos de nobreza, o consumo se torna uma área fundamental para instaurar e comunicar as diferenças (2000: 36).
A questão do gosto artístico, para a burguesia, serviria apenas para justificar que suas prioridades não estão atreladas apenas pela acumulação econômica. E o que ocorre é que a arte acaba sendo relacionada a intenções políticas e este tipo de imposição revela a manutenção e propagação da ideologia de grupos dominantes e o silenciamento das vozes de tantos outros grupos culturais descriminados e marginalizados. Propaga-se desta forma um tipo de arte que restringe a dinamicidade e a originalidade da manifestação artística.
Muitos artistas propuseram reinventar a arte de forma que ela se reintegrasse a nova perspectiva mercadológica, como afirma CANCLINI:
Tatlin e Malevitch foram encarregados de aplicar suas inovações em monumentos, cartazes e outras formas de arte pública; Arvatov, Rodchenko e muitos artistas foram para as indústrias para reformular o design, promoveram mudanças substanciais nas escolas de arte a fim de desenvolver nos alunos “uma atitude industrial em relação à forma” e de fazê-los “engenheiros projetistas”, úteis ao planejamento socialista. (Ibdem,2000: 44)
Mas a autonomia que a arte busca incessantemente esmaece sob o novo cenário que a subjuga em detrimento de um mercado em crescente ascensão determinadas por forças extraculturais.
Novos critérios de avaliação e inserção na sociedade revelam a arte e, portanto a Literatura sob um novo olhar. O mercado exerce uma força descomunal sobre a autonomia artística e isso recria o novo lugar da arte e portanto da Literatura, que não está mais restrita a um público específico mas a diversos públicos. De um lado a expansão da divulgação artística e do outro a dependência à indústria cultural.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CANCLINI, Néstor Garcia. “Das utopias ao mercado” Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3 ed. São Paulo: Edusp, 2000, p.31-66.
SANTIAGO, Silviano. A democratização no Brasil ( 1979-1981 ) - Cultura versus Arte. In: O comopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004, p.134-156.
SOUZA, Eneida Maria. A teoria em crise e O não lugar da literatura. In: Crítica Cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 63-84.
quarta-feira, 30 de março de 2011
A representação feminina no romance Atire em Sofia
O romance Atire em Sofia (AS), da escritora Sônia Coutinho possui alguns temas que perpassam pela discussão da teoria feminista, uma delas é a representação feminina, visto que as mulheres, enquanto sujeito, necessitam que suas qualificações sejam atendidas para que a representação possa de fato acontecer de forma mais ampla. O livro apresenta, já no início, o rompimento de Sofia, personagem central da trama, com a tradição, demonstrando como a mulher sente-se irrepresentada socialmente, pois se necessita de uma ruptura, é por não sentir-se acomodada nos modelos pré-estabelecidos. Para Foucault, os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos que subsequentemente passam a representar (apud, Buttler, 2008, p.18).
Rousseau, em Emílo ou Da educação, enfatiza sobre a maneira como devem se comportar as mulheres e o faz através de uma personagem que também se chama Sofia. A mulher ideal, para ele, “é da ordem da natureza que a mulher obedeça ao homem”. “Sofia” (do grego sopfos), isto é, aquele que age com sabedoria. Para Rousseau, uma mulher agir com sabedoria significava resignar-se à sua condição de fragilidade devido ao fator natural, para Sônia Coutinho, no entanto, sabedoria para a mulher representa contrariar a tradição, não aceitar a imposição de uma vida com um roteiro estabelecido, é desta forma, que a personagem Sofia, do seu livro, questionou o seu lugar na sociedade e partiu em busca de uma vida, em que pudesse tomar suas próprias decisões, escolher e delinear sua ou suas identidades.
A (não) representação feminina decorre do fator da diferença dos sexos, daí que para a teoria feminista, tende haver a distinção de sexo e gênero, de forma a questionar a formulação de que a biologia é o destino. Para Buttler (2008), a distinção entre sexo e gênero atende à tese de que, por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é, culturalmente construído, portanto não é nem o resultado causal do sexo, nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo. A diferença sexual apresentou-se como uma fronteira natural e fixa entre o político e o doméstico, isto é, entre o que representa a si mesmo e o representado; entre o autônomo e o dependente (Scott, 2002).
O livro apresenta ainda outro tema, o casamento, a heterossexualidade hegemônica que se estrutura sob a hierarquia que mantem a mulher em posição de desvantagem, na medida em que se apresenta de maneira radicalmente diferente para o homem e para a mulher, fixando limitações aos comportamentos estabelecidos. Beauvoir (1980) afirma que ambos os sexos são necessários um ao outro, mas essa necessidade nunca desenvolveu nenhum tipo de reciprocidade, pois, socialmente, o homem é um indivíduo autônomo, ao passo que a mulher nunca constituiu uma casta, que fosse capaz de estabelecer permutas e contratos, em pé de igualdade, com a masculina. Essa é uma perspectiva apontada por Sofia, personagem central do livro:
Os casamentos aqui, na geração de minha mãe, eram longos exercícios de ódio. A mulher deveria permanecer sempre criança, para melhor agradar e servir ao homem. Ao longo dos séculos, seu único aprendizado foi a esperteza doméstica. Só podia tirar alguma vantagem ou satisfação da retribuição que, por acaso, os homens oferecessem por seus serviços. Prazeres físicos eram considerados inadequados, impróprios, pecaminosos, para uma mulher “direita”. Gerações inteiras de mulheres de que não temos nenhuma notícia, de cuja vida não ficou registro nenhum. Mulheres de quem nada se sabe, porque a vida inteira cumpririam tarefas consideradas subalternas. Preparar comida, lavar fraldas, amamentar, cuidar de doentes agonizantes, esperar. Apenas deveres, causaria estranheza se tentassem alguma coisa diferente. Mulheres que até aqui se desabituaram de dizer “eu sou”, “eu quero”. (AS, 1989, p.50)
O cartesianismo influenciou sobremaneira o pensamento ocidental, visto que tal perspectiva impõe um hierarquia, privilegiando, nesse caso, o homem, em detrimento da mulher. Esta ideia, no entanto, vem a ser desconstruída no romance, em questão, ao instaurar uma ruptura aos modelos impostos e esperados para uma mulher.
Rousseau, em Emílo ou Da educação, enfatiza sobre a maneira como devem se comportar as mulheres e o faz através de uma personagem que também se chama Sofia. A mulher ideal, para ele, “é da ordem da natureza que a mulher obedeça ao homem”. “Sofia” (do grego sopfos), isto é, aquele que age com sabedoria. Para Rousseau, uma mulher agir com sabedoria significava resignar-se à sua condição de fragilidade devido ao fator natural, para Sônia Coutinho, no entanto, sabedoria para a mulher representa contrariar a tradição, não aceitar a imposição de uma vida com um roteiro estabelecido, é desta forma, que a personagem Sofia, do seu livro, questionou o seu lugar na sociedade e partiu em busca de uma vida, em que pudesse tomar suas próprias decisões, escolher e delinear sua ou suas identidades.
A (não) representação feminina decorre do fator da diferença dos sexos, daí que para a teoria feminista, tende haver a distinção de sexo e gênero, de forma a questionar a formulação de que a biologia é o destino. Para Buttler (2008), a distinção entre sexo e gênero atende à tese de que, por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é, culturalmente construído, portanto não é nem o resultado causal do sexo, nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo. A diferença sexual apresentou-se como uma fronteira natural e fixa entre o político e o doméstico, isto é, entre o que representa a si mesmo e o representado; entre o autônomo e o dependente (Scott, 2002).
O livro apresenta ainda outro tema, o casamento, a heterossexualidade hegemônica que se estrutura sob a hierarquia que mantem a mulher em posição de desvantagem, na medida em que se apresenta de maneira radicalmente diferente para o homem e para a mulher, fixando limitações aos comportamentos estabelecidos. Beauvoir (1980) afirma que ambos os sexos são necessários um ao outro, mas essa necessidade nunca desenvolveu nenhum tipo de reciprocidade, pois, socialmente, o homem é um indivíduo autônomo, ao passo que a mulher nunca constituiu uma casta, que fosse capaz de estabelecer permutas e contratos, em pé de igualdade, com a masculina. Essa é uma perspectiva apontada por Sofia, personagem central do livro:
Os casamentos aqui, na geração de minha mãe, eram longos exercícios de ódio. A mulher deveria permanecer sempre criança, para melhor agradar e servir ao homem. Ao longo dos séculos, seu único aprendizado foi a esperteza doméstica. Só podia tirar alguma vantagem ou satisfação da retribuição que, por acaso, os homens oferecessem por seus serviços. Prazeres físicos eram considerados inadequados, impróprios, pecaminosos, para uma mulher “direita”. Gerações inteiras de mulheres de que não temos nenhuma notícia, de cuja vida não ficou registro nenhum. Mulheres de quem nada se sabe, porque a vida inteira cumpririam tarefas consideradas subalternas. Preparar comida, lavar fraldas, amamentar, cuidar de doentes agonizantes, esperar. Apenas deveres, causaria estranheza se tentassem alguma coisa diferente. Mulheres que até aqui se desabituaram de dizer “eu sou”, “eu quero”. (AS, 1989, p.50)
O cartesianismo influenciou sobremaneira o pensamento ocidental, visto que tal perspectiva impõe um hierarquia, privilegiando, nesse caso, o homem, em detrimento da mulher. Esta ideia, no entanto, vem a ser desconstruída no romance, em questão, ao instaurar uma ruptura aos modelos impostos e esperados para uma mulher.
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
O GT “Mulher e Literatura”, da Associação Nacional em Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL) e a Universidade de Brasília, realizarão, com o apoio dos professores e dos alunos do Instituto de Letra – UnB, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas e do programa de Pós Graduação em Literatura, em suas respectivas linhas e grupos de pesquisa, o XIV Seminário Nacional/V Seminário Internacional Mulher e Literatura, nos dias 04, 05 e 06 de Agosto. O principal objetivo do evento é propiciar à comunidade acadêmica, aos profissionais e aos estudantes de Letras e áreas afins a oportunidade de discutir, de forma abrangente e crítica, questões atuais concernentes aos estudos feministas e de gênero e suas articulações com os estudos literários.
Período de inscrições até: 03/08/2011
Envio de propostas de apresentação de trabalhos:até 15/04/2011
Período de inscrições até: 03/08/2011
Envio de propostas de apresentação de trabalhos:até 15/04/2011
Myriam Fraga
Myriam Fraga nasceu em Salvador, Bahia, em 09 de novembro de 1937. Poeta, contista,
pertence a Academia de Letras da Bahia desde 1985 e dirige a Fundação Casa de Jorge Amado desde que foi instituída em 1986. A carreira literária de Myriam Fraga explodiu nos efervescentes anos 1957/58, quando intelectuais da época, que freqüentavam a Universidade, a Escola de Teatro, a Casa de Cultura localizada no bairro do Canela, se reuniam para trocar, além de idéias, também escritos. A partir daí, Myriam Fraga começou a publicar em jornais e revistas, fazendo amizades com Sonia Coutinho, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez, Glauber Rocha.
A poeta baiana lançou o seu primeiro livro em 1964, pela editora Macunaíma, uma editora criada por Glauber Rocha, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez e Paulo Gil Soares com o objetivo de publicar as produções dessa geração.
Atualmente Myriam Fraga colabora como jornalista no Jornal A Tarde, através da coluna Linha D’Água, espaço reservado para assuntos relacionados a vida cultural da cidade. Publicou, recentemente, no número 03 da revista Iararana, três poesias: Hipupiara, Os Ancestrais e Os Invasores.
Poemas extraídos de O ESCRITOR – Revista da UBE – União Brasileira de Escritores, n. 116, agosto de 2007, cujo editor é o poeta Izacyl Guimarães Ferreira.
CARNIVALE
Porque a carne
É a carne
E tudo mais é fraco
A vida se renova
A cada novo acaso.
Será mesmo a alegria
O gole mais amargo
De um Pierrot que a si mesmo
Reconhece palhaço?
Ó espelho. Ó espelho,
Cada dias mais baço,
Que alvo contorno é este,
Que disfarce
Afasta deste rosto
O ríctus de cansaço?
Nas se é apenas um rito,
Se é apenas passagem,
Um frenesi, um espasmo,
Um galope de cascos,
Rutilantes, no asfalto.
E ao estridente soar
Das guitarras em pânico,
O tempo se desdobra
Em mil estilhaços
Fragmentos de nada...
Ó Deusa Carnivale,
Embala nos teus braços
A alegria dos tristes,
Este embaraço
Do sorriso que se perde
Em carmim e alvaiade.
No rescaldo da festa
Recolhe os pedaços
Deste deus que é delírio
Mas que é também fracasso
Breve
Todo ardor será cinza
Somente a enigmática
Face nos espelhos
Recompondo o disfarce.
CHUVA
Reminiscências
A inquietar
Como a chuva nos vidros.
Sol que avança,
Inexorável,
O tempo, com suas marcas,
Sua umidade em rios,
Dissolvendo a paisagem,
Seu mofo, sua
Insidiosa presença
Escorrendo da tarde.
Um gotejar sinistro,
O salitre
Infiltra-se nas frestas
Reacendendo feridas.
Ó coração,
Não te atormentes,
Não te levantes contra mim,
Esquece.
Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 109)
VIAGEM A MARROCOS
Para Zélia e Jorge Amado
Na cara o vento sul
— Ou será o simum?
O balançar ondeado
Dos camelos.
Fez, Rabat e Casablanca,
Terracota sutil de Marrakesh,
A cristalina fonte
Em meio à pedra.
Azilah, tuas sílabas
Adejam como aves,
Como asas roçando
Em minha face.
O meu deus é ninguém,
Morreu menino e é doce
Como um fruto,
Como as águas de Oxum
Lavando-me as feridas.
Guarda para mim,
Azilah,
Tuas tâmaras mais doces,
Mais secretas...
Um minarete escreve
Linhas tortas
No canto que se enrola
Pela tarde.
Como um risco de giz
Meu caminho é um círculo,
As caravanas passam...
No regaço
O cão, morto, não ladra.
Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 121-122)
Myriam Fraga nasceu em Salvador, Bahia, em 09 de novembro de 1937. Poeta, contista,
pertence a Academia de Letras da Bahia desde 1985 e dirige a Fundação Casa de Jorge Amado desde que foi instituída em 1986. A carreira literária de Myriam Fraga explodiu nos efervescentes anos 1957/58, quando intelectuais da época, que freqüentavam a Universidade, a Escola de Teatro, a Casa de Cultura localizada no bairro do Canela, se reuniam para trocar, além de idéias, também escritos. A partir daí, Myriam Fraga começou a publicar em jornais e revistas, fazendo amizades com Sonia Coutinho, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez, Glauber Rocha.
A poeta baiana lançou o seu primeiro livro em 1964, pela editora Macunaíma, uma editora criada por Glauber Rocha, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez e Paulo Gil Soares com o objetivo de publicar as produções dessa geração.
Atualmente Myriam Fraga colabora como jornalista no Jornal A Tarde, através da coluna Linha D’Água, espaço reservado para assuntos relacionados a vida cultural da cidade. Publicou, recentemente, no número 03 da revista Iararana, três poesias: Hipupiara, Os Ancestrais e Os Invasores.
Poemas extraídos de O ESCRITOR – Revista da UBE – União Brasileira de Escritores, n. 116, agosto de 2007, cujo editor é o poeta Izacyl Guimarães Ferreira.
CARNIVALE
Porque a carne
É a carne
E tudo mais é fraco
A vida se renova
A cada novo acaso.
Será mesmo a alegria
O gole mais amargo
De um Pierrot que a si mesmo
Reconhece palhaço?
Ó espelho. Ó espelho,
Cada dias mais baço,
Que alvo contorno é este,
Que disfarce
Afasta deste rosto
O ríctus de cansaço?
Nas se é apenas um rito,
Se é apenas passagem,
Um frenesi, um espasmo,
Um galope de cascos,
Rutilantes, no asfalto.
E ao estridente soar
Das guitarras em pânico,
O tempo se desdobra
Em mil estilhaços
Fragmentos de nada...
Ó Deusa Carnivale,
Embala nos teus braços
A alegria dos tristes,
Este embaraço
Do sorriso que se perde
Em carmim e alvaiade.
No rescaldo da festa
Recolhe os pedaços
Deste deus que é delírio
Mas que é também fracasso
Breve
Todo ardor será cinza
Somente a enigmática
Face nos espelhos
Recompondo o disfarce.
CHUVA
Reminiscências
A inquietar
Como a chuva nos vidros.
Sol que avança,
Inexorável,
O tempo, com suas marcas,
Sua umidade em rios,
Dissolvendo a paisagem,
Seu mofo, sua
Insidiosa presença
Escorrendo da tarde.
Um gotejar sinistro,
O salitre
Infiltra-se nas frestas
Reacendendo feridas.
Ó coração,
Não te atormentes,
Não te levantes contra mim,
Esquece.
Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 109)
VIAGEM A MARROCOS
Para Zélia e Jorge Amado
Na cara o vento sul
— Ou será o simum?
O balançar ondeado
Dos camelos.
Fez, Rabat e Casablanca,
Terracota sutil de Marrakesh,
A cristalina fonte
Em meio à pedra.
Azilah, tuas sílabas
Adejam como aves,
Como asas roçando
Em minha face.
O meu deus é ninguém,
Morreu menino e é doce
Como um fruto,
Como as águas de Oxum
Lavando-me as feridas.
Guarda para mim,
Azilah,
Tuas tâmaras mais doces,
Mais secretas...
Um minarete escreve
Linhas tortas
No canto que se enrola
Pela tarde.
Como um risco de giz
Meu caminho é um círculo,
As caravanas passam...
No regaço
O cão, morto, não ladra.
Fêmina. Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 121-122)
HELENA PARENTE CUNHA
Nasceu em Salvador (BA), em 1930. Poeta, ficcionista, tradutora, professora universitária, pesquisadora, ensaísta e crítica literária. Em 1954, com bolsa de estudos da CAPES, especializou-se em Língua, Literatura e Cultura Italiana em Perúgia (na Itália). Seus primeiros escritos foram publicados no Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo, na revista Tempo Brasileiro, na Revista Brasileira da Língua e Literatura, entre outros. Em 1956, deu inicio aos seus trabalhos de tradutora de obras da língua italiana. Trabalha, desde 1968, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Estreou, em 1960, com o livro de poemas Corpo do gozo, premiado no Concurso de Poesia da Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara, em 1965. Outros livros de poesias da escritora: Corpo no cerco, editora Tempo Brasileiro, 1978, com apresentação de Cassiano Ricardo; Maramar, editora Tempo Brasileiro, 1980; O outro lado do dia, editora Tempo Brasileiro, 1995; e Além de estar, editora Imago, 2000 (reúne seus livros de poesia anteriores, além de trazer material inédito). A poesia de Helena Parente Cunha tem o mérito de iniciar no país um avanço em relação ao Concretismo — experiência que iria desaguar no movimento neobarroco, principalmente com o poema “Além de estar”.
Salomão Sousa
ALÉM DE ESTAR
vesti-me com a luz pendida
nas espumas que mais brancas
nas ondas que mais ondas
descontei o meu ficar
nas pedras depois das pedras
meu deixar-me por deixar
nos azuis de mais que azul
meu estar-me além de estar
CREPUSCULAR
perpendicular
ao caminho
insisto
andar
circunscrita
na hora
duro
o percurso
horizontal
cheguei
para
me crepuscular
BLOQUEIO
onde sopra agora o vento
que levava o que eu dizia?
onde se perderam os nomes
que tantas coisas tiveram?
onde ficaram as coisas
chamadas em minha voz?
e minha voz
como assim subtraída?
gosto de pedra
na saliva em minha língua
as palavras me emparedam
onde houvera minha boca
RETRATO
de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui
quem aparece
onde pareço?
pouso de passagem
na fotografia
atrás do quadro
que me contorna
desapareço
quem comparece
na própria face?
poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)
de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato
Página preparada por Salomão Sousa e publicada em janeiro de 2008
Nasceu em Salvador (BA), em 1930. Poeta, ficcionista, tradutora, professora universitária, pesquisadora, ensaísta e crítica literária. Em 1954, com bolsa de estudos da CAPES, especializou-se em Língua, Literatura e Cultura Italiana em Perúgia (na Itália). Seus primeiros escritos foram publicados no Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo, na revista Tempo Brasileiro, na Revista Brasileira da Língua e Literatura, entre outros. Em 1956, deu inicio aos seus trabalhos de tradutora de obras da língua italiana. Trabalha, desde 1968, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Estreou, em 1960, com o livro de poemas Corpo do gozo, premiado no Concurso de Poesia da Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara, em 1965. Outros livros de poesias da escritora: Corpo no cerco, editora Tempo Brasileiro, 1978, com apresentação de Cassiano Ricardo; Maramar, editora Tempo Brasileiro, 1980; O outro lado do dia, editora Tempo Brasileiro, 1995; e Além de estar, editora Imago, 2000 (reúne seus livros de poesia anteriores, além de trazer material inédito). A poesia de Helena Parente Cunha tem o mérito de iniciar no país um avanço em relação ao Concretismo — experiência que iria desaguar no movimento neobarroco, principalmente com o poema “Além de estar”.
Salomão Sousa
ALÉM DE ESTAR
vesti-me com a luz pendida
nas espumas que mais brancas
nas ondas que mais ondas
descontei o meu ficar
nas pedras depois das pedras
meu deixar-me por deixar
nos azuis de mais que azul
meu estar-me além de estar
CREPUSCULAR
perpendicular
ao caminho
insisto
andar
circunscrita
na hora
duro
o percurso
horizontal
cheguei
para
me crepuscular
BLOQUEIO
onde sopra agora o vento
que levava o que eu dizia?
onde se perderam os nomes
que tantas coisas tiveram?
onde ficaram as coisas
chamadas em minha voz?
e minha voz
como assim subtraída?
gosto de pedra
na saliva em minha língua
as palavras me emparedam
onde houvera minha boca
RETRATO
de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui
quem aparece
onde pareço?
pouso de passagem
na fotografia
atrás do quadro
que me contorna
desapareço
quem comparece
na própria face?
poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)
de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato
Página preparada por Salomão Sousa e publicada em janeiro de 2008
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