segunda-feira, 28 de março de 2011

HELENA PARENTE CUNHA



Nasceu em Salvador (BA), em 1930. Poeta, ficcionista, tradutora, professora universitária, pesquisadora, ensaísta e crítica literária. Em 1954, com bolsa de estudos da CAPES, especializou-se em Língua, Literatura e Cultura Italiana em Perúgia (na Itália). Seus primeiros escritos foram publicados no Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo, na revista Tempo Brasileiro, na Revista Brasileira da Língua e Literatura, entre outros. Em 1956, deu inicio aos seus trabalhos de tradutora de obras da língua italiana. Trabalha, desde 1968, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.



Estreou, em 1960, com o livro de poemas Corpo do gozo, premiado no Concurso de Poesia da Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara, em 1965. Outros livros de poesias da escritora: Corpo no cerco, editora Tempo Brasileiro, 1978, com apresentação de Cassiano Ricardo; Maramar, editora Tempo Brasileiro, 1980; O outro lado do dia, editora Tempo Brasileiro, 1995; e Além de estar, editora Imago, 2000 (reúne seus livros de poesia anteriores, além de trazer material inédito). A poesia de Helena Parente Cunha tem o mérito de iniciar no país um avanço em relação ao Concretismo — experiência que iria desaguar no movimento neobarroco, principalmente com o poema “Além de estar”.

Salomão Sousa





ALÉM DE ESTAR



vesti-me com a luz pendida

nas espumas que mais brancas



nas ondas que mais ondas

descontei o meu ficar



nas pedras depois das pedras

meu deixar-me por deixar



nos azuis de mais que azul

meu estar-me além de estar



CREPUSCULAR



perpendicular

ao caminho

insisto

andar



circunscrita

na hora

duro

o percurso



horizontal

cheguei

para

me crepuscular





BLOQUEIO


onde sopra agora o vento
que levava o que eu dizia?

onde se perderam os nomes
que tantas coisas tiveram?

onde ficaram as coisas
chamadas em minha voz?

e minha voz
como assim subtraída?

gosto de pedra
na saliva em minha língua

as palavras me emparedam
onde houvera minha boca


RETRATO

de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui

quem aparece
onde pareço?

pouso de passagem
na fotografia

atrás do quadro
que me contorna
desapareço

quem comparece
na própria face?

poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)

de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato


Página preparada por Salomão Sousa e publicada em janeiro de 2008

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sereníssima

Eu agora que não sei
posso sair da sua vida
e rir
nua, sua, à toa.

Não devo satisfações,
não devo nada
nem a você
nem a ninguém.

Eu, agora que não sei,
não quero nem saber
o que pensam de mim:
passa fora!

Não compro, não pago,
não sei que horas são,
não visto etiqueta
nem ideologias.

Eu, agora que não sei,
é tão bom acordar,
perambular nos jardins de mim
e desanuviar, desanuviar...

Solineide Maria, poetisa e escritora itabunense e minha amiga

Um olhar no caminho de Beth

Beth saíra cedo de casa para aquele curso de inverno que havia se matriculado, meio contra a sua vontade, mas mudara de ideia ao lembrar que ele poderia lhe trazer futuros benefícios financeiros. Acabou atrasando-se, pois precisava tomar dois ônibus para chegar à universidade, fez todo o percurso pensando nas várias atividades que deixava pra trás para participar daquele curso, desceu do ônibus e resolveu esquecer um pouco das atribuições a que estava submetida, cantarolou uma música que fazia muito não cantava. Observou como mudara aquele lugar onde havia passado um bom tempo, participado de movimentos sociais, ampliado as suas perspectivas, feito amigos, enfim, aquele lugar estava diferente, não tinham mais aqueles estudantes apaixonados e cheio de ideais a que fizera parte, agora não passava de um lugar impessoal, de atitudes programadas, pouca espontaneidade. Sentiu uma ponta de tristeza, pensando nos momentos que ali passou.
Aproximando-se da sala sentiu um calafrio e um frêmito em seu coração, talvez por saber que ali não encontraria ninguém conhecido, sempre sentia-se assim quando penetrava em ambientes novos, insegura e ansiosa. Abriu a porta e sem olhar para todos deu bom dia a alguns e o fez com discrição para não atrapalhar a professora cubana que com sua oratória frenética buscava manter a atenção dos participantes.
Andando por entre as cadeiras, cuidando encontrar um bom lugar para sentar-se naquele auditório gelado, Beth descobriu um Olhar que parece tê-la aquecido e recepcionado-a, mas depois pensou que aquilo não passava de mais um dos tantos equívocos que ela cometia. Sentou-se e tentou se situar acerca do que falava a professora com o seu espanhol abrasileirado e uma demasiada simpatia, apresentava uma das várias histórias que iria contar ao longo do módulo que ministrava. Entre tédio e preguiça Beth ouvia os argumentos pouco convincentes da professora e pensava se valia mesmo a pena estar ali.
Aquele Olhar cruzou o olhar de Beth, que agora estava distante em terras estrangeiras, como aliás todos os lugares agora para Beth que parecia não mais se reconhecer, sobretudo em sua condição de mulher casada e mãe, parecia querer situar-se num outro lugar, afirmar sua identidade antes de tudo como mulher, valorizando os seus desejos e vontades, simples assim, passou a criar diálogos dentro de si acerca de sua liberdade e de suas escolhas. Voltando rapidamente dos pensamentos a que estava imiscuída, percebeu e olhou aquele Olhar. Aproximou-se do rapaz que parecia ter mais idade do que realmente tinha, conversaram e descobriram afinidades, a aula acabou, se dispersaram.
O dia seguinte foi marcado por uma espera e uma certa felicidade, de repente aquele curso ficou bastante interessante e toda a atenção de Beth estava voltada para aquele rapaz que a olhava diferente e parecia compreendê-la, novamente trocaram muitas ideias, almoçaram juntos e principalmente se olhavam muito.
Os dias se seguiram e Beth sentia-se muito feliz com aquele Olhar, pensou em como seria bom beijá-lo e um dia, depois de conversarem muito e embriagarem-se de álcool e de ideias, sentiram um desejo inexplicável e pensaram que mesmo casados poderiam permitir-se a algo tão intenso, voaram para um lugar onde puderam ficar mais à vontade e se beijaram apaixonadamente, trocaram carícias e se amaram. Mas passado aquele momento o rapaz encheu-se de culpa, não concebia aquilo, tinha se casado para ser feliz para sempre, talvez não tivesse feito a coisa certa. Beth, no entanto, sentiu-se feliz como há muito não se sentia, voltou para sua realidade travando diálogos internos ainda mais acirrados.
Entre expectativas e desejos, a resignação, a sensação de querer falar e também ouvir, mas a culpa, ah! Aquela culpa dilacerou o que ainda nem havia começado...que pena! Beth queria vê-lo novamente, queria sentir aquilo que sentiu ao beijá-lo, mas aquele Olhar agora vazio, ficou indiferente.

Catherine Santana

Destino indesejado

Aquele seria mais um daqueles dias difíceis, pensou a Mulher ao sair de casa, mesmo vestindo a melhor roupa, maquiando-se como mandam as convenções e ouvindo Jacques Brel suplicar que a amada não o deixasse em uma de suas chanson française, não sentia-se confortável. Pensando se valeria realmente a pena todo aquele sacrifício, fechou a porta de seu minúsculo apartamento e dirigindo-se ao ponto de ônibus mais próximo sentou-se mais à espera de algum acontecimento que a fizesse desistir daquele encontro do que propriamente de um ônibus, acendeu um cigarro e dispensou o primeiro que chegara com o destino indesejado.
Enquanto fumava relembrava a última vez que encontrara aquela tia e os demais familiares, era estranho admitir que odiava aquelas pessoas, ela própria ainda não sabia de que sentimento realmente se tratava, mas parecia ser levada a um impulso de colocar-se diante deles, e sob esses pensamentos tomou o ônibus seguinte quase duas horas depois.
Buscando integrar-se pensou o quanto era inútil esta tentativa, talvez porque também fosse tão inflexível e rija quanto aquele ambiente que a hostilizava e a relegava a um plano que ela jamais se reconheceria. Desesperada alienou-se, camuflando-se num cenário harmoniosamente social.
Novamente aquele olhar, novamente a sensação das palavras inadequadas, do comportamento vil. Em mais um de seus romapantes a Mulher jogou-se no mar e desintegrando-se foi devorada por peixes.

Catherine Santana

Felinos

Sentada à beira de uma escrivaninha, lendo um livro, percebo o olhar fixo em mim, sinto como se estivessem analisando a cada gesto meu, às vezes parecem querer me dizer algo. Caminham ao encontro do terceiro e sob o sol lambem-se freneticamente como fazem todos os dias, todas as horas. Lembro-me de Ferreira Gullar que os define como uma maquininha inventada pela natureza, com pêlos, bigodes, unhas e um motor afetivo que bate em seu coração e o seu ronronar é para mostrar o quanto é grato, lembro-me desse poema e sinto uma pontinha de felicidade ao vê-los brincarem. Toda doçura e mistério parecem estar concentrados nesses três que andam elegantemente e não tiram o seu olhar de mim, parecem querer me dizer algo e angustio-me por não conseguir fazê-los me mostrar o que querem de fato, por que me olham tanto e tão profundamente? O que querem afinal? Desisto, ponho-me a ler novamente mas não consigo me concentrar, passo agora a observá-lo mais e os vejo correndo como se estivessem gargalhando, esfregam-se no chão, rolam uns com os outros, refestelam-se, depois sobem na janela, pulam e eu corro para alcançar mais uma cena, eles fogem. Volto a ler meu livro e não mais me concentro pensando neles.

Catherine Santana

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Camarão no jantar

Sônia Coutinho


Chove há dois dias. A mulher sozinha trancada em seu apartamento. Está muito úmido. Acordou com o corpo todo doendo. E teve a deprimente ideia de que era reumatismo.

Depois do café da manhã, achou que era preciso mudar tudo. Como? Ah, sim, grande ideia. Na verdade, repetida ao longo de anos, a mesma ideia: tentar reativar um grande amor, que permanece em banho-maria. Morno mas ainda aquecido.

E na história desse amor há um jantar que o Homem Amado nunca esqueceu. Deve fazer vinte anos, mas ele sempre fala daquele bobó de camarão preparado por ela.

Antes, houve uma série de tentativas de sua mãe, de lhe ensinar a cozinhar. Sempre se recusou a aprender, achava careta.

Rogério, o único homem que conseguiu, em toda a vida dela, levá-la para a cozinha. Decide ligar para ele, agora.

Decorou desde o início o número do telefone do escritório de Rogério. (Um dia, lembra, disse a ele: "Se esse número, alguma vez, deixar de atender, enlouqueço. Vou ter de mudar de vida. Ou de cidade, de país, quem sabe.")

Já o telefone da casa dele, Rogério sempre deu um jeito de nunca lhe informar. Muito menos, claro, de levá-la lá. A história era horrorosa: ele era casado desde quando se conheceram, e sempre disse o contrário. Mas veio a descoberta.

Ela estava em New Orleans — sua primeira viagem aos Estados Unidos, num grupo de turismo quando ligou para aquele eterno número do escritório de Rogério e ouviu a seguinte resposta de um dos dois outros advogados associados: "Ele saiu, foi levar ao médico a esposa dele, que está grávida."

Um dia inteiro ouvindo jazz em Bourbon Street e chorando. Até então tinha sido enganada — ou se enganara, voluntariamente, em dois anos de relacionamento tórrido (de sua parte).

Liga agora para Rogério, atende um desconhecido (os dois outros advogados do escritório mudaram) e vai chamá-lo.

Que voz a dele, maravilhosa. E sua eterna gentileza.

Depois de uma rápida troca de palavras, ela convida:

— Venha jantar aqui, na próxima sexta-feira. Desta vez, será bobó de camarão, prometo.

— Que maravilha! Vou sim, sem falta – responde.

Mas sempre se mostra entusiasmado, promete ir — e fica apenas na promessa. Nunca — ou raramente aparece.

Ora, corta essa de maus pensamentos, ordena a si mesma, ao desligar o telefone.

Deita-se no sofá e avalia o convite que acabou de fazer. Foi num impulso. Talvez não devesse.

Mas há a chuva, seu quase desespero. Tudo bem, fará o bobó.

Está de férias, pode enfrentar a trabalheira. Até agora, vem convidando Rogério, com escassos resultados, para vários outros tipos de refeição. Agora, usa seu maior trunfo.

Para daqui a uma semana. Assim, até dá tempo para todos os preparativos: limpar a casa, ver se está lavada sua única toalha de mesa realmente festiva (é linda), providenciar as bebidas.

E ir logo comprando todos os ingredientes do bobó. Menos, claro, o camarão, que fica para a véspera. É um prato que se precisa começar a fazer no dia anterior, não dá para aprontar tudo no mesmo dia.

Enquanto isso, cabe uma boa faxina no apartamento, escolher as flores que colocará nos jarros. E no que fará para criar um "clima". (Decide deixar apenas alguns abajures acesos, em pontos estratégicos.)

Pensa agora no próprio Rogério, na sedução dele. Também engordou, como ela. Mas tem uma espécie de doçura que o torna lindo. Seus dedos... Aqueles dedos grandes.

Um encanto irresistível que vem.,. sabe ela de onde! Um homem fechado, misterioso, Esconde o jogo.

Enquanto durou o caso de amor deles, Rogério a fez de gato e sapato, depois vinha sempre seu perdão. Primeiro, tem de reler a receita do bobó, que não prepara há tanto tempo, ver se ainda sabe os truques.

Depois fará uma lista de ingredientes. É bom lembrar que o mercado de frutas e verduras fecha na segunda-feira.

Além de ser o único homem para quem gostou de cozinhar, em toda sua vida, Rogério é também o único que lhe inspirou amor à primeira vista. Coisa em que não acreditava, mas aconteceu.

A paixão começou quando o viu sentado a uma escrivaninha do escritório dele (precisava de um advogado, alguém o recomendara), alto, todo grande, muito sério. A tarefa da vida dela seria amenizar aquela seriedade, só que ele não deixou.

Recentemente, em conversa pelo telefone, Rogério dissera, rindo: "Você mudou minha vida..." Talvez porque soubesse que era o que ela mais esperaria ouvir, da parte dele.

Um homem bem vestido e tratado como nunca tivera igual.

Ela, que sempre fez um gênero "alternativo", ela que usava bolsas indianas, colares artesanais, ela que anda sempre com sujeitos mais para artistas, "papo-cabeça". E agora Rogério, nada menos.

Ele seria, com certeza, a grande aspiração de mulheres de outro tipo. Para ela, significava entrar no comum.

Todas gostam de flores, mas ela nunca pensara nisso a fundo. Até que, um dia, começou a achar uma orquídea a coisa mais linda do mundo. Sua paixão por Rogério ficava nessa clave.

O curioso era ela, afinal, amar com tanta intensidade um homem assim. Tirou muitas fotos dele, admirando seu perfil grego. Um amor para ela irracional, como não acreditava que pudesse acontecer-lhe.

Porque havia um detalhe: Rogério era dez anos mais novo. O que dava àquele relacionamento o indispensável caráter de impossibilidade. Era um amour fou, apesar de tudo.

Chove, chove ainda. Dá um pulo do sofá, vai tomar um banho quente. E revê mentalmente, sob o chuveiro, todos os dados acumulados, ao longo dos anos, sobre aquele homem mistério.

Primeiro, meses de paixão e cama. Depois, a descoberta de que ele era casado, o que a fez romper dramaticamente o relacionamento.

Em seguida, um período de recaídas, relações intermitentes.

Sim, admitia que gostava de prolongar as coisas, não sabia nunca pôr um ponto final, quando algo, um dia, tinha sido agradável. Apegava-se interminavelmente a pessoas, situações.

Acabou havendo, no caso do Rogério, a inevitável sublimação: uma amilié amoureuse. Alimentada por telefonemas profissionais seus, pois continuava a precisar de um advogado: as eternas questões em torno dos imóveis que sua mãe alugava.

Mas quase todas as iniciativas eram suas. Para ela, mais sofrimento do que qualquer outra coisa, mas não sabia como se desprender daquilo.

Aquela ânsia que às vezes sentia por Rogério. Era preciso controlar-se para não telefonar mais uma vez. Como se convencer, afinal, de que aquilo não renderia nada mais além, na melhor das hipóteses, de uma eterna amabilidade?

Decide sair para almoçar fora, apesar da chuva. Está acostumada a sair sozinha, a entrar nos restaurantes sem olhar em torno.

Hoje, para combater a deprê, irá a algum lugar onde nunca foi, um restaurante mais caro. Fica imaginando qual.

***

E chega a noite do prometido jantar.

Não quero descrever a angústia dessa mulher, na sala à meia-luz, enquanto o tempo passa e a comida esfria.

Rogério está atrasado meia hora, mas ela ainda não sente inquietação. De vez em quando, vai até a cozinha dar uma olhada no bobó. Para acompanhar, há apenas arroz, uma refeição simplificada.

Agora, Rogério está atrasado uma hora, mas ainda sente esperanças.

Uma hora e meia de atraso, toda e qualquer possibilidade vai desaparecendo deste mundo.

Ah, mas que história insuportável. Ah, meu Deus, que dor. Terrível, a dor dessa perda.

Um amor que, no entanto, ela continua achando que não levou tão a sério quanto merecia.

Por que teve aquela reação tão radical, quando soube que ele era casado? Por que não fez como todas as outras, foi levando? Como não percebeu na mesma hora que tinha de ser humilde, porque jamais esqueceria aquele amor?

Um homem que, quem sabe — e isso alimenta sua dor —, ela talvez tivesse conquistado, no início, se fosse mais esperta.

***

Mas há ainda um final. Que vem — ou começa a vir — quando ela descobre que Rogério estava tirando uma parte indevida do dinheiro dos aluguéis que sua mãe recebe. (No dia da descoberta, estava no escritório dele e entrou uma garota linda, com um casaco de couro preto... Sorria, sorria para Rogério.)

Mesmo assim, dias depois, cheia de alguma estranha esperança de que nada disso seja verdadeiro, apenas um pesadelo, liga mais uma vez para o escritório dele. E o telefone toca, toca, ninguém atende, como sempre temeu que um dia fosse acontecer. Repete o telefonema nos dias seguintes — e nada.

Descobre, afinal, através de um conhecido comum, que o escritório de Rogério faliu. Que há agora inúmeros processos contra ele, tido como trambiqueiro perigoso. E que ele fugiu, ninguém sabe para onde.

No fundo, porém, ela continua achando que ele apenas se atrapalhou, cedeu a tentações.

Meses se passam e ela ainda se surpreende eventualmente esperançosa de rever Rogério. O telefone pode tocar e ela ouvirá novamente sua voz. Ou ligará para o número inesquecível e ele atenderá.

Mas acaba sentindo, certo dia, depois de muito sumiço, que nunca mais verá Rogério. É uma dor profunda. Pensa ainda, desesperada, em contratar um detetive particular, para tentar localizá-lo. Mas não chega a esse ponto. Ou, pelo menos, ainda não chegou, até o momento.

Por enquanto, contrata outro advogado, numa tentativa de salvar o que ainda é possível dos aluguéis.

Um ano depois, continua amando Rogério, mas, já, de alguma forma, conformada. Outro ano se passa. A ferida ainda existe, porém, e se ela cutucar...

A essa altura só entende o que essa mulher sente quem gosta muito de jazz. E, de repente, ouve Billie Holliday cantando e, com uma punhalada no peito, identifica a melodia: Can't Help Lovin' Dat Man.


Sônia Coutinho, baiana, jornalista e tradutora, é autora de Atire em Sofia, O caso Alice, Rainha do crime — ótica feminina no romance policial, O jogo de Ifá, Nascimento de uma mulher, Os venenos de Lucrecia (Prêmio Jabuti – 1979) Os seios de Pandora (Prêmio Jabuti – 1999), e Mil olhos de uma rosa. Alguns de seus trabalhos foram publicados em antologias no Brasil, Alemanha, Estados Unidos, Holanda, México Canadá.México e Polônia. Em 1983 participou do International Writing Program, em Iowa — USA, tendo sido escritora-residente na Universidade do Texas, a convite daquela instituição. Em 1994, a autora ganhou o grau de Mestre em Teoria da Comunicação com a tese-ensaio Rainha do crime — ótica feminina no romance policial Reside no Rio de Janeiro (RJ).


Texto extraído do livro "21 Histórias de Amor", Livraria Francisco Alves — Rio de Janeiro, 2002, pág. 83. Fotografia da autora por Paulo Marcos.